sábado, novembro 12, 2011


Grafias e grafismos fáceis. Deixa-se trilhar a inespecífica missão do deixar trilhar-se, adocicando a impaciência de alma. Faz-se.

Uma criada que traz uma agradável taça de laranjas frescas.

Reúnem pois o farto cabelo do Marquês e o agudo discurso de seus convidados, em entabuladas peripécias de uma dialéctica arcaica e estética. Há jardim.

Discute-se as próximas medidas. Como fazer crescer o reino, como desobstrui-lo dos interesses paralelos e estéreis dos Távoras, como encabeçar este País em que a anarquia é a regra real por detrás do mundo de regras.

O mesmo num hemisfério carnal se define, a dança de egos no planeta de Ser. Regra delineada pelos Antigos. Circunvalação. Pelo diurno e nocturno, cintilam prosaicas distâncias à luz desse mesmo firmamento. E regras e protocolos por detrás dos quais é sobretudo o querer mais e mais, e o estabelecer-se socialmente o poder de quem o detém. Toda uma constelação que se define contemporânea de Newton. E hoje se conjectura cómodamente por encostos, nesta confraria de almas que é também caudal de cometa.

De súbito nasce poética e bela uma espontânea imperativa. Aniquilá-los. Que linda e preciosa semente, que perfeita antevisão de rosas sublimes e seus espinhos. Empolga-se a burguesia, os médicos entusiasmados à medida que a imaginação rasga e perfura a pele da dôr para deixar sangrar e florescer toda a fertilidade da sede e dos solos de sua sede.

A criada traz agora um requintado aromático vinho, enquanto os presentes encarecidamente discutem os instrumentos que mais cirurgicamente poderão dar voz ao festim da mortandade. Como a altivez do horror, um belo sol vem agora incandescer o fim-de-tarde, enquanto num entusiasmo soberbo se saliva e limpam-se os dedos, após a dupla dentada nos gomos sumarentos como as veias mais nobres. Um prazer místico cresce e funde-se com o propósito e a sociedade. Instala-se neste promissor Verão, para além dos planos de metas e conspirações genuínas, e por entre as finas dobras de tecidos voluptuosos, o real sabor do sangue na acidez da laranja.

Mancham-se as vestes de mais que um sentido de Estado que transborda. Enleia-se no formalismo das almas o vinho e a fulvura de seus encantos. Verte também na alma o requinte da crueza com que a lâmina repartirá cirurgica a opulência da classe mais alta, estrebucha na alma a mesma vítima inesperada e de suas gôtas vitais a rubra intensidade de seus berros, enquanto sábias mãos estudam a fundura de suas vísceras e se enaltecem da real putridão de seus fígados, enquanto os dentes mergulham e testam a suavidade dos pescoços trémulos e o som de seu pânico se engasga e escorre e morre lentamente.

É Noite; o Sonho desponta. Alto por fim o seu alvor redondo e completo. Ritual e transe acariciam aos poucos esta imagética comum. Fervilham palavras primeiro. Alguém sugere, divino: e se brindássemos mais que o próprio brinde? Ao princípio ninguém percebera. Nem o próprio. Levantava-se taças, ecoando pelos ares o tinir da anunciação. Bradava-se, as gargantas mais e mais inflamadas do pudor e o seu esvair-se acompanhando a secura. Porém, e agora que a Lua tudo ilumina, cedo as mãos se roçam também, ao princípio como parte integral e secundária dos movimentos, inevitável dada a expressiva força do embate. Entanto, de toda esta cosmogonia cedo se clareiam as peles de uma ânsia maior, e maior ainda a cócega de sustê-la na fineza de um brinde. E as mãos se provocam ardilosamente à sonoridade do toque. Tlim-tlim. E os punhos reajem fortes à tremura maior, e se estilhaçam taças e o sangue corre fraternamente entre as mãos que se percorrem e os caracóis que se entruzam, e é com a filosofia maior dos corpos que do Universo dos Gregos o Esplendor de Roma se promulga hoje neste anfiteatro supra-político. E as mãos decretam a Nova Ordem com o ênfase com que no sexo alheio depositam o ardôr de se entressugarem visionários.

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Que vórtice de conhecimento! Que pasmo e êxtase, o do palato no qual se disseca o amargo do sémen. A real soberania, escrita na biologia dessa real semente. A Magia de que se tingem as rosadas feições dos homens dessa era. Deus contido no Hirto Falo de Todos. Espuma divina com que um mar violenta toda a planície de uma Pátria ou cultura.

E os Homens embrenham-se em lenda e futuro. E os sonhos canibais explodem entre o amor conforme o ditara a necessidade. E a Liberdade, conceito tão másculo e penetrante, cada vez tão mais perto, como a respiração quente do Conde saciado... O Amor pungente, e o extermínio dos Távoras, e o desfolhar-se a mística das árvores e do centenário... E uma criada que se afigura claramente a oferenda ideal para a divindade do Amanhã, que é esta noite... E as almas entrusadas que se alinham em experimentação da mais sórdida e profana...

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Do Esplendor da Noite, um pequeno montículo por entre os canteiros e um cão que por algum motivo insistentemente fareja em seu redor. Percorre a Aurora as recordações enterradas. Complacente da serenidade com que a manhã lava as côres do jardim, instila e contempla o Marquês, encostado à mesinha do Ontem, um terno sabor a Morte.

«Alguém viu a criada?» pergunta a Marquesa.